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RASTREIO DO CANCRO DO PULMÃO POR TC DE BAIXA DOSE

21/08/2014 - 11:48
RASTREIO DO CANCRO DO PULMÃO POR TC DE BAIXA DOSE
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Pedro Barão, Médico Radiologista

O cancro do pulmão representa 15% de todas as neoplasias e é a principal causa de morte por cancro na Europa. Cerca de 1,3 milhões de indivíduos morreram de cancro do pulmão, em todo o mundo, no ano 2000.
Apesar dos meios terapêuticos actualmente disponíveis (cirurgia, radioterapia e quimioterapia), apenas se obtiveram melhorias marginais na sobrevida destes doentes nos últimos 25 anos. O facto destes doentes serem diagnosticados em estádios terminais, aspecto que associado a um comportamento biológico agressivo destes tumores com um grande potencial de disseminação, torna quase impossível uma abordagem terapêutica com intuito curativo.

Sabe-se que a sobrevivência dos doentes com cancro do pulmão está estreitamente ligada ao estádio em que este é diagnosticado, sendo que quanto mais precocemente for efectuado o diagnóstico, maiores as probabilidades de se obter uma remissão duradoura, após a instituição de uma terapêutica adequada.
O cancro do pulmão atinge cerca de 3 a 4 vezes mais homens que mulheres, apesar de durante a última década estar a assistir-se a uma inversão desta tendência.
A probabilidade de se vir a desenvolver cancro do pulmão está estreitamente ligada a alguns factores de risco. O mais importante é o tabagismo, sendo responsável por mais de 85% dos casos. Outros factores de risco são a exposição aos asbestos, níquel, crómio e arsénico.
O cancro do pulmão pode classificar-se em carcinoma de pequenas células e de não pequenas células (que inclui o carcinoma epidermóide, o adenocarcinoma e o carcinoma de grandes células).
O carcinoma de pequenas células representa cerca de 20% de todos os cancros do pulmão e caracteriza-se por um rápido crescimento e por disseminação hematogénea precoce. Os restantes tipos representam 80% do total e crescem lentamente , com metastização linfática.
O prognóstico do cancro do pulmão depende do tipo histológico e do estádio da doença por altura do diagnóstico. Quando o tumor é diagnosticado num estádio inicial (tumor de dimensões inferiores a 3 cm, sem disseminação hematogénea ou linfática) o prognóstico é favorável, com uma sobrevida de cerca de 65% aos 5 anos. No entanto quando diagnosticado em estádios mais avançados, a sobrevida aos 5 anos diminui drasticamente. Quando surgem os primeiros sintomas, somente 20 a 25% dos doentes estão nos estádios iniciais (I e II, tumores ressecáveis) e cerca de 50% dos doentes estão num estádio avançado (IV, tumores irressecáveis).
As características do cancro do pulmão tornam em teoria esta doença susceptível de ser rastreada, ao preencherem todos os parâmetros e critérios inerentes a um programa de rastreio.
A prevalência do cancro do pulmão na população de risco é elevada, e ainda pode ser superior se se utilizarem critérios de selecção mais restritos como a história e anos de hábitos tabágicos.
Numa população de fumadores, a taxa de detecção do cancro do pulmão pode ser 10 vezes maior que numa população não seleccionada. A detecção e tratamento precoces do cancro do pulmão parecem traduzir-se num acentuado aumento da sobrevivência dos indivíduos rastreados.
A radiografia do tórax como técnica de rastreio para o cancro do pulmão mostrou ser pouco sensível para pequenos nódulos pulmonares, os quais são a manifestação inicial mais comum do cancro do pulmão. Provou-se através de estudos que só 50% dos nódulos pulmonares medindo entre 6 a 10 mm são detectados na radiografia de tórax e que nódulos até 3 cm podem passar despercebidos. Por outro lado os cancros do pulmão puramente endobrônquicos, sem um importante componente de partes moles, são indetectáveis pela radiografia do tórax.
A introdução da TC espiral em finais dos anos 80 e mais recentemente da TC multicorte, melhorou grandemente a detecção de pequenos nódulos pulmonares.
O cancro do pulmão geralmente surge como um nódulo tumoral de partes moles, substituindo o normal aspecto de parênquima arejado, alteração demonstrável nas diversas técnicas radiológicas (radiografia do tórax; TC e RM).
Com o advento da TC multicorte, e com as suas inúmeras possibilidades de reconstrucções tridimensionais e técnicas de volume rendering, o diagnóstico de lesões pulmonares em estádio precoce é uma realidade.
Segundo os últimos estudos realizados, o rastreio do cancro do pulmão por TC de baixa dose resultou numa detecção 5 vezes superior de tumores potencialmente excisáveis, quando comparada com a radiografia do tórax.
A TC tem o potencial de detectar nódulos pulmonares de dimensões tão pequenas, entre 1 a 2 mm, devido ao grande contraste existente entre o parênquima arejado e o nódulo e a ausência de sobreposição de outras estruturas.
O rastreio do cancro do pulmão por TC de baixa dose, baseia-se no facto do grande contraste na absorção da radiação entre os nódulos pulmonares de alta densidade e o pulmão arejado, permitindo uma detecção viável destes quando se baixa a dose de radiação aplicada ao indivíduo a ser rastreado.
A dose efectiva equivalente numa TC de rastreio ronda os 5 mSv, com um baixo risco teórico de indução de novas neoplasias numa população de 100 mil indivíduos, quase desprezível, inferior a 5 novas neoplasias.
O resultado de pelo menos 8 estudos, nos quais foi utilizada a TC de baixa dose no rastreio do cancro do pulmão, mostraram-se promissores, ao identificar o cancro do pulmão numa fase precoce, ainda ressecável em 62 a 93% dos indivíduos rastreados. Contudo os resultados dos follow-ups realizados nos 5 a 10 anos seguintes ainda não estão disponíveis, não sendo ainda possível concluir se existe uma clara redução na mortalidade associada, a esta patologia na população rastreada.
Devido à elevada prevalência do cancro do pulmão, o seu prognóstico favorável quando diagnosticado em estádios precoces, a ausência de sintomas em fase precoce e a definição de grupos de risco, será previsível aplicar num futuro próximo um teste de rastreio que detecte esta patologia ainda numa fase curável, com redução da mortalidade associada.
A única técnica actualmente disponível, com aplicação imediata é a TC, que pode ser utilizada com parâmetros de baixa dose, recorrendo à tecnologia multicorte e ao diagnóstico assistido por computador.

 

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